A produção e a filmagem são boas (as atuações idem, mas normalmente uma boa produção brasileira indica boas atuações); muito mais do que esperava.
Esse diretor apresenta a mim um tipo de cultura mundana muito diferente daquela em que estou inserido. Acho ótimo, sobretudo pelas três qualidades que citei anteriormente.
Destaco o tratamento pessoal entre o avô e a auxiliadora. Ela não possui nem nome; é auxiliadora e parece que nunca se afirmará na existência. Isto (e a violência psicológica e moral) me lembra muito a Macabéa e a personagem de Dogville (apenas em Dogville, não em Marderlay).
O enquadramento e a pouquíssima mobilidade da câmera me conduziram a uma fabricação constante de fotografias; este tipo de filmagem, num filme-retrato, parece-me perfeito.
É um bom filme. Gostei, de fato, mas não extremamente: 1) acho as conclusões dos filmes Amarelo manga e Baixio das bestas (os que vi do Cláudio Assis) muito vagas. Embora isso dê aos filmes um tom “e assim vai”, isto é, expresse uma continuidade freqüente, penso que é um aspecto pouco explorado; 2) queria que fosse mais cru, afinal, parece-me exigência do próprio contexto.
Vi comentários que apontavam para a crueza (violência) do filme como algo negativo ou chocante demais. Eu não acho. Primeiro por que em filmes de ação há muito mais violência (sangue, porrada, tiro, amputação e explosões) que Baixio das bestas; segundo por que é a sua angústia que causa má impressão, não as ações, pois estas não são nada explícitas. Atrevo-me a dizer: é justamente isso que Assis quer.